AUDIBLE: Anderson Candioto

Anderson Candioto, Designer – 14 de setembro de 1984

Ficção e realidade…

Capa-01

Eu sempre gostei dos filmes de futebol americano e das histórias de superação, mas nunca havia assistido a uma partida. Apenas em agosto de 2010 eu conheci a realidade deste esporte. Tudo começou com um convite do pessoal do UFPR Legends, no finado Orkut, para comparecer nos treinos. Na época eram seis, no máximo sete pessoas, e os treinos eram somente rachões recreativos no Centro Politécnico da Universidade Federal do Paraná – e eu não tinha a menor noção de qual posição iria jogar.

Comecei a assistir mais o esporte na TV e decidi que queria ser wide receiver (pura ficção). Alguns treinos depois eu fui mudado para tight end, por ser o maior recebedor que a gente tinha, no auge dos meus 85 kg (rs). Mas, não fiz nenhuma partida nestas posições – a ficção acabou. Numa história que eu não tinha idéia que se repetiria de uma maneira parecida seis anos depois, em maio de 2011 nossos dois quarterbacks passaram mais de um mês sem treinar. Naquela altura já tínhamos mais de 30 atletas. Ali a realidade chegou e eu comecei a quebrar um galho na posição – mas decidi que assumiria a bronca e passaria a treinar para disputar a vaga.

Joguei por três anos como QB titular do UFPR Legends, até a fusão com o Curitiba Brown Spiders (no final de 2014). No período eu sofri demais com lesões, em especial uma ruptura de ligamento cruzado anterior, em 2012, que me tirou de mais da metade da temporada. Mas, foi com a chegada de Wayne Lucero (no início de 2014) e depois de algum tempo já recuperado dessa lesão, que eu consegui realmente evoluir o meu jogo. Com ele, aprendi muito sobre timing, release, leituras e funcionamento do jogo, mas por inconsistência técnica, oscilei bons e maus momentos.

Após a fusão, já em 2015, permaneci como QB titular e vi meu jogo melhorar bastante, sobretudo pelas armas que passamos a ter: a linha ofensiva, dominada pelo Rômulo, Pinguim, Julião e Ignácio era algo que fez com que tanto o pocket quanto o jogo corrido fluísse muito bem; no jogo aéreo, os atletas vindos do Legends como o Athos, Jonas e Nelson ganharam ainda mais destaque e suporte de outros atletas como o Guilherme Wide e Tuleskinho. Além disso, na defesa, o Matheus Luz foi (e é) a maior referência, por toda a qualidade técnica que tem. Junto a ele tivemos o TJ, americano que realmente fazia o papel de “ilha” na defesa quando esteve conosco, além do próprio Wayne.  Aquela temporada havia sido, de longe, a melhor até então – mesmo oscilando muito durante as partidas.

ataque passado

Em 2016 a disputa entre os QBs estava muito interessante e de alto nível. O Anhucci havia recém chegado e o Hulyan também havia evoluído muito. Ali chegamos a dividir por diversas vezes o campo, jogando os três na mesma partida por algumas vezes. Foi um ano pouco produtivo pra mim em especial, porque tive uma lesão no braço e, somado ao revezamento (causado, em grande parte, pela minha inconstância), não consegui ter um bom rendimento.

Quando a realidade de ser QB já parecia estar chegando ao fim, para a temporada de 2017 eu decidi mudar. Foram vários fatores que me levaram a tomar essa decisão: o bom rendimento nos treinos do Hulyan e do Anhucci e o fato de termos problemas na quantidade de jogadores defensivos. Decidi que poderia ser mais útil jogando na secundária (linebacker ou defensive back, em uma espécie de híbrido) e times de especialistas. Nunca saberei a razão exata dessa decisão, se foram as oscilações na forma como eu jogava no ataque, se foi pra abrir espaço e aumentar o número de repetições dos outros QBs, ou se era a sensação de ser mais útil ao time. No fim das contas, acho que foi um pouco de tudo.

Defesa 01

E isso acabou me trazendo certas vantagens, analisando após a temporada acabar. Como já havia atuado do outro lado, conseguia entender melhor o desenrolar de algumas jogadas. Consegui fazer boas leituras de play actions, por exemplo, que me renderam 2 sacks no Campeonato Paranaense deste ano. Mas, era um universo totalmente novo e eu precisei reaprender tudo: stance (posição pré-snap), movimentação, tackle, posicionamento… tudo mesmo! E, no fim das contas, todo mundo sabe que um campeonato nacional do nível da BFA (Brasil Futebol Americano) não permite que você aprenda alguma coisa durante a temporada. Não tinha expectativas de ser titular na defesa neste ano, mas por uma série de fatalidades eu passei a ser e, junto a isso, vieram muitos erros, que hoje eu já não cometeria mais.

Coincidentemente, minha melhor partida defensiva estava sendo contra o Timbó Rex, atual bicampeão nacional. Estava me sentindo bem, com a sensação de que estava fazendo a coisa certa. E aí a maior mudança desse filme aconteceu e eu tive que mudar de lado de novo! Na verdade, não sei mais direito em qual momento isso era ficção ou realidade. Eu estava sentado ao lado dos parceiros da defesa, descansando, quando me chamam pra entrar. A primeira coisa que me veio na cabeça foi: “Filho da p***, esqueci de entrar em algum ST!”.

Mas, na verdade, novamente fui substituir nossas duas opções de QB. Como um filme que eu já tinha visto, seis anos atrás. Desta vez as lesões tiraram meus parceiros de campo: Hulyan, nosso QB titular, quebrou a clavícula e Anhucci, QB reserva que também atua como recebedor, rompeu o ligamento poucos snaps depois. Quando percebi que era pra entrar no ataque, falei “Vamos lá, mas preciso que me digam o que fazer!”… e contei com muita ajuda da galera! A chamada vinha da sideline, eu olhava pro Athos, nosso principal WR, e ele me descrevia a jogada. A galera na linha teve que se acostumar com algumas faltas de comando, mas se viraram muito bem. Conectei alguns passes e por pouco não conseguimos pontuar.

No treino seguinte, durante a semana, eu aceitei minha nova realidade e já estava trabalhando com o ataque novamente. Conversamos muito com os coaches, expliquei e alinhei com o coordenador ofensivo Alberto tudo o que eu seria capaz de fazer ou não. Não tínhamos muito tempo e por isso utilizamos do esquema mais simples possível pra conseguir caminhar com o ataque. E, novamente, conhecer o outro lado ajudou a evoluir meu jogo. Passei a entender algumas reações defensivas que não entendia até ano passado, a explorar melhor os espaços dados e tirar proveito de algumas vantagens. Isso me deu tranquilidade e ajudou muito nossas primeiras campanhas. Apesar das baixas no elenco, consegui fazer um bom jogo duas semanas depois, na partida que valia a nossa permanência na BFA em 2018.

Contra o Juventude, conseguimos explorar bem o jogo aéreo e corrido. Foram mais de 260 jardas aéreas, um número ótimo para um ataque com poucos atletas saudáveis, mas não foi o suficiente para nos manter na BFA e perdemos a partida. A dificuldade se deu, principalmente, porque não conseguimos nos manter saudáveis por toda a temporada, por não conseguir manter um elenco forte e equilibrado e também por não assimilar e executar as coisas que os coaches pediam. E execução, na BFA, é a parte mais fundamental. Nosso game plan era muito inteligente, com certeza top 10 do país. Mas nossa execução não e isso custou caro.

Mas, quando olho pra trás, tenho certeza que tudo valeu a pena. Absolutamente tudo. Em 2017, principalmente no final da temporada, tive muito apoio – de todo mundo. Tanto jogadores de defesa quanto de ataque foram muito pacientes e me ajudaram a encarar essa situação. A linha ofensiva foi paciente e os recebedores se ajustaram aos meus passes. Outro atleta que foi fundamental nesse processo foi o Misael, nosso running back. Ele se ajustou rapidamente ao meu estilo de handoff e tempo de leitura nas read options e foi fundamental pra fazer o ataque andar nesse período.

Ataque 03

A próxima temporada deve ser de um pouco mais de ficção. Espero que tenhamos mais atletas determinados a executar e devolver o Brown Spiders à elite do FA. Já estou trabalhando pra isso, mas não sei ainda em qual lado vou jogar. Vou conversar com os coaches e ver onde posso ser mais útil. No fim dessa temporada eu olhei, desta vez para a minha realidade, e percebi que o que mais me deixou feliz foi ser útil para a equipe e dar 100% de mim independente de onde iria (e se iria) jogar.

Pra mim essa é a grande essência do futebol americano: o símbolo no peito vale muito mais do que o nome nas costas.

(Fotos: Vinícius Basso / Equipe Futebol Americano Paranaense | Cortesia / Arquivo pessoal Anderson Candioto)

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