AUDIBLE: Rodrigo Zandoná

Família, cara… família é tudo!

WhatsApp Image 2017-11-25 at 2031-3

Todos os dias, no momento que eu levanto da cama, eu agradeço pelas minhas conquistas, tanto no trabalho quanto na minha vida pessoal. Costumo dizer que eu e meu irmão tivemos uma “obrigatória independência precoce”. E, pra que eu consiga falar do Max jogador de futebol americano, preciso falar do Rodrigo, ainda adolescente, antes disso…

O relacionamento entre eu e meu irmão não era lá aquelas coisas anos atrás. Ele morava em Clevelândia/PR com minha mãe, enquanto eu estava cursando fisioterapia aqui em Curitiba. Pra quem não conhece, são de 400 km de distância. Por ser muito longe, depois de algum tempo minha mãe decidiu vir morar na capital, pra ficar mais próxima e pra termos uma vida juntos, em família. Naquele momento, eu achei uma ótima decisão – e realmente foi. Mas, mal eu sabia que, de certa forma, Deus estava fazendo com que aquela aproximação fosse uma preparação para uma despedida, que viria em breve.

Dois meses depois que veio pra cá, minha mãe partiu de uma forma bastante trágica. O que parecia ser uma oportunidade de união entre eu e meu irmão acabou, novamente, não acontecendo, já que ao perdermos nossa mãe tivemos que nos separar novamente. Nessa época eu estava com 19 anos e fui morar com meus tios, enquanto meu irmão, com 12, foi morar em uma sala comercial com meu pai.

Ele não tinha um quarto para dormir… meu pai era cabeleireiro e tinha um salão de beleza que, a noite, ao fechar as portas, ambos dormiam juntos em um sofá-cama no qual os clientes, durante o dia, aguardavam para serem atendidos. Pra resumir a história, passamos por muitas dificuldades. Tanto na parte profissional e material, com eu tendo que pagar minha faculdade e trabalhar em dois empregos, quanto na parte pessoal, tendo que lidar com a falta que minha mãe fazia. Enquanto isso, meu irmão era um adolescente sem ter um quarto, uma TV para jogar vídeo game ou um simples guarda-roupa.

Não, eu não estou reclamando do que passamos, pois isso foi essencial para formar nosso caráter e para percebermos o quanto tudo isso é irrelevante quando queremos vencer. Sei que existem pessoas que tem condições muito piores que essa. Mas, preciso dar um bom panorama, um cenário de fundo mesmo, sobre tudo o que passamos, para que entendam o quanto o esporte foi fundamental para a nossa união.

Eu já estava com 27 anos quando meu pai me chamou e perguntou se eu não queria dividir uma casa com ele, já que as coisas tinham começado a melhorar financeiramente. Ele aproveitou essa oportunidade e tentou nos unir, já que não convivíamos muito. Foi assim que passamos a morar juntos.

Vivíamos debaixo do mesmo teto mas ainda estávamos um pouco distantes um do outro. Acho que era normal pelo fato de termos passado pouco tempo juntos. Neste período ele estava treinando em um time não muito conhecido chamado Buster. Eles não tiveram equipamentos mas foram celeiro de muitos atletas conhecidos. E esse foi um daqueles momentos que, quando você olha pra trás, percebe que foram cruciais na sua história.

E a vida cara, a vida é recheada de curiosidades, de coisas que parecem conspirar pra que tudo entre no eixo. Voltando um pouco no tempo, em 2009 o Alemão, meu irmão, um dia viu futebol Americano na TV e pensou: “vou treinar isso!”. Buscou na internet algum time de Curitiba e encontrou um site do antigo Hurricanes. Ele enviou uma mensagem, mas ninguém respondeu. Como ele ficou interessado, procurou novamente sobre times e aí viu que o Barigui Crocodiles estava realizando seletivas. Ele foi até o parque onde estavam acontecendo os testes, mas foi considerado inapto segundos os organizadores. Na saída encontrou alguns jogadores do Busters que elogiaram o desempenho dele e chamaram para fazer parte do elenco.

Um dia, sem nenhuma pretensão, ele disse:  “Digo, vou jogar um amistoso contra o Legends aqui perto de casa, na Federal… não quer ir comigo?” Decidi assistir e depois daquele dia mágico, não consegui mais parar. O esporte fez com que eu e meu irmão no uníssemos cada dia mais. Íamos juntos para os treinos, jogos e viagens. Fomos nos conhecendo, criando admiração um pelo outro e, com o tempo, ficamos inseparáveis. O esporte também foi curando as cicatrizes deixadas pela falta de nossa mãe e dos tempos difíceis que vivemos longe um do outro.

Quando comecei jogar, Alemão jogava no ataque, como Tight End. Numa partida, em nosso primeiro campeonato paranaense, defendendo as cores do Predadores, algum atleta da defesa se machucou e eu pedi que ele substituísse, já que o jogo estava acabando. Aquela foi a primeira vez que jogamos juntos. Essa parceria perdura até hoje, até porque ele nunca mais quis voltar para o ataque.

Aah, como éramos competitivos… um queria superar o outro. Eu, que querendo mostrar que oito anos a mais não fazem diferença quando se tem disciplina e objetivos traçados; ele, com sua juventude, querendo mostrar que, com sua irreverência e alegria, poderia ser melhor que eu. No fim das contas, era uma disputa sadia que rendeu muitos resultados para nosso time. Profissionalmente, fizemos parte de uma das melhores defesas do País. Pessoalmente, nos conhecemos muito e conquistamos a confiança um do outro.

O Alemão foi responsável por trazer para o futebol americano alguns caras fundamentais: Gulin, ex-seleção brasileira; Carlos Copi, atual head coach do Paraná HP; Lucas Copi, atual kicker do time principal; e eu, que acabei sendo uma das peças importantes na fusão entre Hurricanes e Predadores, que gerou o Paraná HP. Estes atletas contribuíram muito para o cenário atual do FA e são responsáveis, entre outros, por estarmos onde estamos como equipe. Alguns trouxeram outros atletas muito importantes, outros ajudam no desenvolvimento do esporte ou nos números dentro de campo.

E, ainda no sentimento que o destino é bastante engraçado, gostaria de relembrar: o Alemão acabou jogando no mesmo time dos jogadores que o ignoraram, aqueles do Hurricanes que não responderam a mensagem, depois da fusão com o Predadores. Além disso, venceu os que o consideraram inapto, do Crocodiles, com a ajuda do irmão que levou para treinar para concretizar a fusão. A vida é maravilhosa!

De lá pra cá, me manter no esporte tem sido algo um pouco sacrificante. Tenho dois empregos: trabalho de analista de gestão em uma das maiores operadores de Saúde do Brasil e a noite sou gerente de uma pizzaria da minha família. Alguns me perguntam se sobra tempo para treinar e eu digo: “espera um pouco que tenho ainda meu terceiro emprego, mas este não é remunerado: presidente do Paraná HP!”. Tento ser um presidente bastante ativo nas tomadas de decisões, no convívio com os atletas. Tento buscar as soluções dos problemas de cada um de maneira individual, pois acredito que a melhor maneira de ser servido é servir.

Se isso não bastasse, tenho que me dedicar como atleta também. Em quatro anos de HP, tive apenas 4 faltas, por motivos de trabalho. Na minha cabeça, não tenho como cobrar dos atletas se eu mesmo não tiver uma postura exemplar, dentro e fora de campo.

Mas, confesso que eu me preocupo de maneira exacerbada com meu rendimento como atleta (rs). Adoro gerir pessoas mas também amo jogar. E como não sou mais um menino (atualmente tenho 35 anos), meu rendimento também não é o mesmo e eu nunca quero ser questionado de estar jogando por ser diretor. Quero merecer isso e tento compensar com muito treino: seis vezes por semana na academia e FA até quatro dias por semana. Além disso, sempre que posso faço visitas às academias dos outros atletas para treinar. Gosto muito de estar ao lado dos meus irmãos de time.

Acredito também que a alimentação é fundamental – e me cobro muito disso. Tenho uma dieta bastante rigorosa, com suplementação, no mínimo 7 horas de sono por noite e não bebo nem fumo, pois acredito que esta receita consegue amenizar um pouco os efeitos da idade.

WhatsApp Image 2017-11-25 at 20.31.05 (1)

Acho ainda que a mente é muito poderosa. De nada adiantaria todo esse rigor com meu corpo se a minha mente não estivesse no mesmo ritmo. Por exemplo, em 2015: rompi totalmente o tendão do bíceps em um jogo, ao final do último quarto. Lembro que olhei para o Carlito [head coach do HP] após um Snap e disse “piá, acho que estourei meu braço, olha o bíceps… está perto do ombro (!) (risos)” ele me olhou e disse: “droga, nosso ataque já está saindo de campo… você terá que entrar em mais um drive”. Entrei e finalizei aquele jogo sem o bíceps. Depois, veio a consequência: precisei realizar uma cirurgia de emergência pra arrumar isso. O médico disse que, como eu era atleta, em seis meses eu estaria de volta aos campos. Aí, entra o que eu disse do poder da mente: eu disse a ele que voltaria em três. Mesmo com ele falando que era impossível, em três meses eu estava disputando a final do Campeonato Paranaense. É claro que eu não recomendo isso a ninguém, mas eu sabia que estaria pronto. Nosso corpo é reflexo e responderá de acordo com o que nossa cabeça acredita.

Antes de finalizar, queria compartilhar algo um pouco mais recente. Sempre me perguntam quais os momentos inesquecíveis que vivi no esporte e se foi o título inédito e histórico que tivemos no paranaense de 2016. Eu tento voltar no tempo e tudo que pensei quando levantei o troféu foi: “e agora?”. Naquele momento, percebi que nunca lutei por títulos e que ele foi uma consequência. O que me manteve motivado e sempre disposto a melhorar as condições do time foi a convivência com os atletas. Para ser uma pessoa bem sucedida, como atleta ou dirigente, você deve amar o processo. E, aos poucos fui percebendo que amo o processo, estar com meus amigos, correr atrás de algo melhor para eles, treinar para render mais nas partidas, ensinar o que aprendi para alguém mais novo, tentar transformar o nosso cenário em algo melhor, mudar a vida de alguém que não teve oportunidade… isso me deixa feliz no dia a dia. E eu descobri, quando levantei o troféu pela primeira vez, que sem ele eu continuaria sendo feliz, porque amava o processo – não o troféu. Isso é uma lição que todos devem aprender. Sou uma pessoa muito cética com relação ao futuro do esporte no País, devido à falta de apoio e estrutura. Mas nem por isso vou deixar de amar o processo, pois só assim podemos fazer a diferença com pouco. Se não conseguirmos fazer o esporte crescer, podemos promover a transformação das pessoas ao nosso redor, e isso já deve ser o suficiente.

DSCF7651

Quero agradecer muito ao futebol americano por tudo que proporcionou em minha vida. A proximidade com meu irmão, meus novos irmãos, uma nova e grande família que me ensinou o quanto o esporte pode ajudar as pessoas a serem melhores como indivíduo. Fica aqui também meu apelo aos empresários, para que invistam mais no esporte e na educação, que são a única maneira de promovermos a mudança em nosso País. Aí sim sonharemos com um futuro melhor para as próximas gerações.

No fim, tudo se resume a gratidão. E, eu agradeço a todos que fizeram e fazem parte da minha vida e contribuíram para que eu me tornasse uma pessoa melhor.

(Fotos: Cortesia Arquivo Pessoal / Rodrigo Zandoná | Vinícius Basso / Equipe Futebol Americano Paranaense)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s